sábado, 16 de julho de 2016

Caras, bocas, olhares .....

 Aline e suas bocas

De longe ele a viu, parade, olhando para cima, com uma expressão suave de felicidade e o início de um grande sorriso se formando naquela boca carnuda e bem desenhada.
Ele se aproximou…. Olhou para ela bem nos olhos, ..percebeu que ela olhou para ele de cima a baixo antes de chegar perto, e antes de encará-lo nos olhos deu uma boa olhada na boca dele…
“Não acredito”…pensou ele sentindo aquele velho arrepio que vinha de dentro pra fora…
Havia recíproca no olhar. A não ser quando ela olhava para a sua boca. Quando ela fazia isso, ele percebia demais, e ela parecia não conseguir se controlar. Ficava séria, demorou a soltar uma gargalhada. Mas havia recíproca da sua boca. Ele riu.



Eles se olham, e olham a boca um do outro. As convenções comunicação moderna não são suficientes para descrever a sensação dela naquele momento… resumindo, não há palavras para explicar o fenômeno que acontecia dentro dela……o foco deve ser no cara…
“Eu tenho que ir, já está tarde”….disse ela, quase arrancando um pedaço da boca dele com aqueles olhos azuis, bem destacados por aquele contorno escuro que dava sim um tom de agressividade no meio de tanta suavidade.
“A gente se fala?”... perguntou ela, com aquela voz que parecia amaciada por algum filtro de veludo, que o fazia ouvir e sentir cada palavra como se pudesse ser tocado por aquela boca carnuda, maravilhosa. Arrepios no pescoço, subindo pela espinha e saindo pela nuca, sentiu até a sua temperatura aumentar.
"Pelo menos ela não usou o gerúndio", pensou... tentando se pendurar no último fio daquela teia de aranha, naquela hora qualquer fiapo de esperança era melhor do que o sentimento de derrota que normalmente toma conta de um homem quando não se sente "desejado" por uma mulher. Pobres de nós... 
Mas homem também tem boca. E as vezes até pensa. E ela, certa de si, tentava acreditar que o ogro iria entender a mensagem, alguma hora.

Foram embora. Nunca mais se viram. Ele sempre lembrava dela…..até que, seis anos depois, se viram novamente, e começaram a se falar, combinar, se declarar através de mensagens, algo que ainda o remetia ao sentimento anterior, dele, a recíproca. Saudade da boca. Dela.
Chegaram a falar um para o outro que queriam muito se ver. Quer dizer, escreveram um para o outro. Esperam o olhar ….. e suas bocas … falando cada vez mais de longe, bocas pensantes, a confusão de mentes errantes! 

Pensava no rosto, nos olhos, nos cabelos. Pensava no jeito, na voz, nos movimentos, e nos detalhes que percebia ou imaginava. Era mesmo uma atração diferente, como ele queria. Nada convencional. Aquela boca era algo fora do normal.
Continuam tentando. Mas ele não tinha nem o nome, muito menos o telefone.... só a lembrança das bocas.

(D.Seabra)