quarta-feira, 3 de junho de 2015

De Primeiro Grau

O Pomar e as jabuticabas

Ele teve uma surpresa quando a conheceu, ela parecia ser exatamente como ele a imaginava, antes de conhecê-la.

Andava de um lado pro outro, na sua casa, desde que tinha perdido mais uma vez o contato com ela pela internet. De repente se viu em pé, de frente aos pés de Jabuticaba, no seu pomar, na casa onde morava. 

Daquele pomar havia tirado muitas respostas em vários momentos, para questões emocionais e sentimentais.

Ela lhe chamou a atenção pelo jeito direto, pela forma de falar, e também, pela estonteante beleza de menina, mas com aquele toque mágico de mulher. Não sabia o que era na verdade, mas algo começou a lhe puxar o pensamento na direção dela.

Bem em meio ao seus anseios e sonhos com alguém que nunca encontrara, ele se viu escavando o pântano lodoso que existia dentro dele, quando então achou o que esperava. Uma flor.

Ele podia ter lembrado do Lírio, que nasce do lodo, das orquídeas que plantava ao redor de sua casa, das rosas que se entrelaçavam nos galhos de uma laranjeira já bastante desgastada e velha, mas que ainda dava seus frutos grandes e doces de vez em quando.

Mas não, pensou em outra flor. Na flor da Jabuticaba.

A flor da Jabuticaba cobre os seus galhos como um manto de pérolas, fazendo desaparecer as imperfeições de sua superfície irregular, cheia de defeitos, tortuosa.

Ele pensou nos seus defeitos, nas suas flores, e pensou nela. Lembrou do que ela disse quando se conheceram: “quero me mostrar para você, apresentar o que tenho de melhor, mas também o que tenho de pior”.  Ele nunca esqueceu aquela frase, mas ali, naquele momento, pensou que era isso que ele buscava. Outra pessoa, diferente, autêntica, disposta a se mostrar como era.

 Pensou no pomar, nas frutas, nas estações, imaginou, pensou em encontrá-la, como seria a primeira vez, o primeiro sorriso, primeiro abraço, as curiosidades, a vontade de se conhecer. Sim, ele havia sentido dela uma vontade de se aproximar, e queria muito deixar isso rolar. Não sabia por que. Mas queria muito.

Começou a imaginar ela, aquela entidade de beleza escondida nos tempos, tão perto, tão longe. Do nada, havia tomado um coice de emoções, e seu coração pulava pela boca quando olhava a foto dela, que havia colocado na tela de fundo de seu celular. Desde que se conheceram ele não parava de pensar, e foi isso.

Ele imaginou que as pessoas fossem como pomares. Ele era um pomar, ela era outro.

Dentro dela haviam 4 estações, e dentro dele também. Mas nem sempre o verão dele coincidia com o dela. Quando nela era inverno, nele primavera, quando ele tinha o outono, quase inverno, ela irradiava o sol do verão. Assim como as estações seriam diferentes, as frutas também.

Eles trocariam frutas entre si, a cada estação algo de diferente. No seu verão, tomado pelo seu amor, ele lhe dava amoras, e ela lhe entregava sorridente uma cesta de limões capeta.

No outono dela, ele ganhou caqui, o traíra do pomar, para ele sentir o tempo, o doce dele. Naquela semana ele deu pitangas a ela, que brilhavam como os seus olhos quando olhava para a foto dela,  no celular.

Uma vez ela lhe trouxe jabuticabas, ele levou goiaba, e eles brincaram com as sementes da romã. Já comeram amoras juntos. Viram nascer as primeiras acerolas.

Já começava a escurecer, e as orquídeas que ele plantou na cerca refletiam a luz da lua cheia daquela noite, uma linha azulada na mesma altura ao redor da casa, ele respirou fundo e ainda viu as flores da jabuticabeira. Decidiu que, das suas jabuticabas, só poderiam aproveitar, aqueles que tivessem visto, e aprendido com as flores.

Imaginar o seu doce, sentir seu perfume, ver as flores caindo, olhar o chão coberto com as pérolas não mais vivas, mas ainda formando um tapete lindo, para finalmente contemplar seus galhos, defeituosos, descascados, e em breve arrancar deles finalmente o doce. O prazer de comer uma jabuticaba, o prazer de sentir o doce após tantas sensações.

Ele queria ver a flor. Ele queria saber mais dela. Conhecer suas estações. Pensou em escrever aquilo mas ainda lhe faltavam palavras.

Fechou os olhos, e a viu. Ela parecia tão viva ali na sua frente, tão ardente corpo, o brilho dos olhos, ele se descontrolou. Abriu os olhos, perdeu de vista seu sonho e tentou vê-la de novo. Não conseguiu, mas sabia que ela existia. Ela a tinha visto.

Lembrou de uma frase de um filme de arte feito por um amigo seu, “O amor, nasce e morre, por imagens....”.

E continuou a  pensar nela.... 


(D. Seabra)

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