quinta-feira, 17 de abril de 2014

Juízo Final - Parte 1

Naquela segunda-feira o décimo andar daquele prédio parecia mesmo um refrigerador, daqueles que se usa para armazenar carne bovina e suína vinda dos matadouros. Mas o cheiro era de carne queimada. Foi assim…


"Sr. Dante, é a sua vez, eles estão te esperando…", disse a secretária do Sr. Pavão, o líder supremo, considerado pelo menos por ele o "Deus", daquela comunidade de zumbis ali alocados. Realmente uma ave pra lá de alegórica.

Era a reunião de avaliação de performance dos executivos naquele ano tenho de 2011.


Já dentro da sala, Dante procurou uma das cadeiras vagas, obviamente se esquivando da cabeceira. Não porque se sentia mal em posições de destaque. Mas não queria ser destaque de porcaria nenhuma naquela mesa. Além disso procurava se localizar onde pudesse falar mais baixo, apesar de ter vontade de berrar e … bom deixa.

"Meu Deus, que coisa horrível", pensou ele ao olhar para o nó da gravata de um dos quatro diretores que o estavam aguardando para a avaliação anual de performance. Ele sempre parou para olhar os nós de gravata do Sr. Xong Wong, parecia que ele procurava fazer cada vez menores "nós", e aquilo ficava ainda mais horroroso quando ele inventava de colocar gravatas coloridas, desenhadas, um estilo meio "Hannibal" de combinações. Bem, neste caso pode até ser que ele era sim, coerente com as suas próprias atitudes.

Dando uma rápida passada nos estilos, ou melhor dizendo, no "outfit" da turma de Diretores, viu que ninguém ficava para trás. Tinha aquele meio gordo que usava o paletó apertado para parecer mais magro, e também aquele que andava com a caixinha do telefone na cintura, presa ao cinto, super na moda. E para não deixar de aparecer, quando vinha o Sr Pavão era sempre uma surpresa, não dava para prever o que aquela verdadeira ave de rapina alegórica iria vestir naquele dia. Principalmente quando era para concluir o seu plano infalível e pouco humanitário de derrubar um de seus executivos em prol das suas escaladas políticas.


Um ano depois do pedido de seu presidente ele poderia então comemorar..., 

.., e começar a planejar qualquer outra trama, ou usar, ou ser usado...

"E aí pessoal o que estamos esperando para começar?", provocou Dante em tom sarcástico, dando gargalhadas consigo mesmo e esperando quem seria o primeiro babaca a responder a sua pergunta. 


"Temos que aguardar o Pavão", disse logo o homem do nó de gravata minúsculo.

Mantendo a prática do desrespeito em dia, chega então, o trio elétrico, a alegoria, o carro das putas, o Sr. Pavão. A ave. Sim, o Sr. Pavão, entrou na sala com um risinho prá lá de safado, daqueles que Dante conhecia. Era a mesma cara com a qual ele ficava depois de trepar com a faxineira do décimo segundo andar, no seu apartamentinho no centro, sem nem tirar a gravata.

"Espere ai Pavão, tem algo no seu paletó, disse a secretária, segurando o braço dele e batendo com a outra mão na gola do paletó, varrendo grosseiramente duas partículas avantajadas de um pó branco que ninguém ousava perguntar o que era, ou ver. Isso mesmo, nego fechava os olhos.

"Caralho!", gritou com ela, de forma meio racista e autoritária. "Esse lance não é mais a mesma coisa, da próxima vez pede o pessoal para subir uns dois andares acima me comprar algo mais adequado ao meu estilo…", disse ele com a arrogância de sempre.

Como sempre entrou gritando incomodando a todos com aquela voz estridente, "e aí pessoal, como estão vocês?", imediatamente respondido quase que em coro por aquele bando de yuppies acostumados a viver aquela vida de mentira, assim como Dante.


Ele olhou nos olhos de nosso amigo Dante, deu a volta na mesa e foi em direção à um lugar bem ao lado dele. Pegou a cadeira, e se sentou de frente para o encosto, aquele jeito que o cara se senta nos, "copos sujos", ou botecos, naqueles onde se joga sinuca com fichas parecidas com as de fliperama.

Da cadeira de boteco, ele olhou para Dante e, percebendo uma tranqulidade e relaxamento, algo esquisito para o padrão daquele projeto de inferno, conforme havia definido, e não estava adequado.

"Me diz aê Dante, como andam as coisas, tudo bem?, perguntou na primeira oportunidade o Pavão.

"Depende do ponto de vista…", respondeu Dante.

"Como assim, ponto de vista?… ", perguntou o Pavão, de certa forma demonstrando algum desespero.


Nunca deixe de jogar e fazer a sua famosa "fezinha", naquelas mesas onde mais bandidos poderá conhecer, e depois delatar, mesmo, sem dó, até o melhor amigo, se precisar.”, pensava Dante.

"Os números são assustadoramente fáceis de serem manipulados, disse Dante. “Além disso, são fracos e incipientes, não nos passando ainda nenhuma segurança em relação ao que queremos proteger e amar. Nós mesmos.”,

Por isso Dante olhava tanto olhava estatísticas. 




Mas se esquecia um pouco de olhar a retaguarda...