sábado, 24 de maio de 2014

Juízo Final - Parte 2

Bom não sei se vocês se lembram, em “Juízo Final – Parte 1”, Dante havia acabado de entrar na sala para se reunir com a Diretoria e discutir a sua avaliação de performance como executivo na empresa.

Continuando naquele clima de “vamos logo saber quem será o próximo escalpelado da lista”, começa a falar o Pavão:

“Quando perguntei como é que andam as coisas, garoto, estava falando da sua vida pessoal. Sr. Dante, me conta como você tem lidado com a questão da separação…”

Dante olhou para todos na mesa, que olhavam para ele com aquele ar de “pega leve na resposta pelo amor de Deus”, ou seja, e disse:

“Sr. Pavão, financeiramente, nunca estive tão bem após me separar…”, o que arrancou gargalhadas de todos.

“… fisicamente, tenho feito bastante exercícios em academia para ver se diminui o estresse, e psicologicamente…”, foi quando veio o Sr. Pavão e interrompeu, com aquele ar de malandro da pior qualidade em quem não se pode confiar, dizendo:

“Eu perguntei é se você está comendo muita mulher (fazendo com as mãos um gesto simbolizando uma vulva), pois é isso que vai te tirar do buraco, boceta!”
 
Após esta exclamação o Sr. Pavão, naquele melhor estilo mal caráter, foi praticamente ovacionado pela turma de puxa-sacos de plantão.

“É isso mesmo, Dante, boceta! Bota pra quebrar…!”, disse o Sr. Xong Wong, aquele do nó de gravata que parecia cada vez mais minusculo.

“Srs, pra falar a verdade não estou nem me masturbando direito, de tantos remédios que tenho tomado por conta do div … mas isso não importa pra vocês..”, disse Dante com um tom bem mais sério, mas que não deixou de arrancar gargalhadas no grupo.

“Agora, fora os outros remedinhos não é meu caro…?”, disse em tom irônico um dos colegas Diretores, que até então havia ficado calado.

“Não vamos entrar em conversas ligadas ao meu lado pessoal, Sr. Bento…”, respondeu Dante rispidamente para o sujeito. Em sua cabeça, veio a imagem daquele projeto de yuppie, frustradinho de Wall Street, comendo a estagiária nova de seu colega na escada do prédio onde teve a sua festa de aniversário, encharcado em “remedinhos, e bêbado como gostava de ficar.

“Aqui tratamos de assuntos diversos, inclusive pessoais…, interrompeu, com um tom de poder, o Sr. Pavão.

“Minha vida pessoal é a minha vida pessoal, e mesmo que vocês investiguem, espionem, copiem, tirem fotos, não vou discutir nada que não seja aberto nesta sala aqui…”, disse ele batendo a mão aberta no tampo vidro da mesa.

Muito “caxias”, com o trabalho, Dante sempre foi de checar todos os procedimentos e normas. Parece que ele tinha uma memória fotográfica para certas coisas. Ele sabia que tudo aquilo que estavam usando para rebaixá-lo, ou seja, eliminá-lo, não apenas a ele mas a sua felicidade, deveria ser aberto para ele, se fosse ser usado para seu eventual desligamento, que era o que ele esperava.

Ou seja, se existissem motivos, deviam ser claros, e não eram. Todos sabiam que aquilo tudo era fruto de espionagem sofisticada, feita de forma ilegal. Arrombamento de vida pessoal.

Dante ainda disse em tom irônico, ”a minha esposa, quer dizer, ex-mulher, já foi embora, não há mais ninguém além de mim para vocês ameaçarem com seus joguinhos vorazes. Vou colocar fogo nisso tudo…”.

Dante falava de ameaças que começou a receber, em casa, ele e sua esposa, sobre assuntos ligados às “mega” concorrências pelas quais ele era o responsável na empresa. O menino tinha alguns bilhões de dólares em licitações sob sua responsabilidade, e por falar nisso, era o que ele sabia fazer bem. Melhor do que qualquer um.

E ser bom, neste assim como em todos os mercados, causa algo muito degradante para nossas vidas. A inveja dos outros.

“Mas quem falou em espionagem, ameaças?”, perguntou O Sr. Pavão olhando para o restante da platéia. Pra variar o bando de babacas se entreolhava e ficava calado como sempre, consentindo com qualquer merda que aquele cara falava.

“Vocês sabem muito bem do que estou falando, ou aquele dia em que visitamos a “Sala do Pânico”, eram clones dos senhores, e não vocês mesmos, junto comigo.”

A tal sala, era um centro de processamento de dados com poderes de acesso à todas as unidadades, funcionários e seus dados e dispositivos, imagens, gravações, tudo que pode ser eventualmente utilizado contra ou a favor de alguém.  

Neste momento Dante lembra rapidamente das demonstrações que fizeram os rapazes da tal sala, que ficava no subsolo. Painéis e monitores mostrando como as pessoas da empresa eram grampeadas em casa, no trabalho, as mulheres, os filhos, câmeras, telefones que gravam e batem fotos até desligados, etc.

E Dante, mesmo sabedor disso, nunca deixou de ser quem ele era, e continuava sim, a também aprontar as suas. Ele sabia que tudo estava bem aparente internamente na empresa, também. Ou seja, todos sabiam de seus, “Problemas”.

Lembrou rapidamente do seu divórcio, das brigas, das baladas, excesso de bebidas, drogas, remédios, seu universo paralelo, aquele passageiro sombrio, como ele gostava de pensar, não cabia mais no mesmo lugar, tinha que aparecer, e era isso que estava acontecendo. Ele sabia que era vigiado.

“Bom, para encurtar o assunto…, disse Dante em tom enérgico como se fosse o chefe da reunião, “Eu vou deixar claro que não irei ceder à estas ameaças, por mais superficiais que sejam, há provas materiais, e não irei desistir de seguir meu caminho aqui dentro. Já disse a vocês, criei e estruturei a minha área, tenho uma equipe motivada, treinada e de alta performance. Promovi mais executivos, desenvolvi talentos. Solicitei pesquisas de clima adicionais, que mostram que meus funcionários buscam a aderência aos valores e metas da nossa Diretoria, e sabemos que nosso time é ponto fora da curva…”.

“Bati todas as metas e toda a equipe vai ganhar bônus completo…, o que mais querem?”, perguntou Dante.

“Estamos preocupados com você…”, disse o Sr. Pavão com uma cara de benevolência, que parecia o Papa.

“Vamos parar de baboseira, ou vocês abrem o jogo ou eu vou estourar esta merda, jogá-la no ventilador e mostrar aos clientes internos onde está nosso problema…” disse ele olhando nos olhos do Sr. Pavão, que continuava sentado na cadeira como se estivesse no boteco.

Dante sabia de acertos e conluios excusos, tocados pelo Sr. Pavão, tudo devido aos seus contatos chave. Contatos que ninguém ali imaginava serem do network de Dante.

“Se você pensa que me ameaça com isso, Sr. Dante, se engana. Se você pensa que sabe, de onde vem isso, Sr. Dante, também se engana…”, disse o Pavão, passando para um tom ameaçador.

“A grande pergunta nem sempre é, sobre alguém querer alguma coisa, mas sim quem é esse alguém que quer algo. Você no meio disso…”, falou Sr. Pavão agora em tom totalmente ameaçador.

E Dante sabia de muito mais coisas do que eles imaginavam… mas sentia no fundo que estava chegando a hora de uma grande mudança.

“Nós temos informações e dados consistentes para lhe assegurar que o Sr. teve uma queda de performance considerável, e não tem percebido, Sr. Dante.”, disse Pavão olhando para os demais que consentiam com sinais de cabeça.

“Mas a performance e as notas da minha turma atingiram níveis máximos, o cumprimento das metas…”, disse Dante quando foi interrompido.

“Aqui nesta mesa”, disse o Sr. Pavão, batendo nela com bastante força, “a banda toca diferente garoto, de nada vale este seu painelzinho de metas”…

“Estamos falando de coisa grossa, disse o Sr. Wong, há quase uma hora calado…você sabe disso Dante. Você está “se achando”, mas cuidado, você pode e está prestes a se dar muito mal, se continuar achando que pode negociar com todo mundo que você quiser.

“Vamos ser claros, vocês estão falando do caso daquela obra, da qual reduzi os valores significativamente, ou do caso onde a planta de processamento dos materiais caiu quase para  metade do preço? Vocês estão reclaman….”,

“Cale a boca Dante, por favor…”, disse o Sr. Pavão com uma cara de que ia chegar a um fim aquela besteirada toda.

“… arrumando um jeito de me ferrar porque abaixei os preços demais?”, gritou Dante quando foi interrompido novamente pelo chefe supremo.
 
“Eu já disse, cale a boca rapaz…”.

Ainda na sala, o clima continuava meio congelado, como se todos esperassem uma resposta…






(não percam! Juízo Final - Part 3 (finale)

(D.Seabra)








quarta-feira, 14 de maio de 2014

Mentira Perfeita


Quando as plumas se vão, a carruagem parte, e por sobre o terreno lamacento e encharcado vemos exatamente o que esperamos, afoitos, com medo. Vemos as realizações, sucessos, fracassos, lembranças do futuro próximo, dores e cores do passado, enraizadas como armas pontiagudas vindas das mais diversas origens e tocadas pelos mais diversos tipos de caráter. Infinitamente complexo, delicado e arriscado. 

Através da revelação de imagens perdidas em meio digital, foi possível sentir o drama, o caso de amor, próprio, o frio, o medo de qualquer julgamento que não... é... me agradasse.

Um drama amargurado. Racional. Me parece que sabiam! sim, que a grana iria acabar. A vida era assim. Como se fosse uma mentira, comprada na Rua Oscar Freire, em São Paulo, em uma época que quero deixar literalmente enterrada, varrida, banida, da minha vida de hoje.

As pessoas mudam. Sempre. Só não muda quem normalmente tenta mudar a todos por comodidade ou por dificuldades inerentes ao processo de auto-conhecimento, sugerido em casos de perdas radicais ou processos nos quais eventualmente somos apoiados por pessoas raivosas, pseudo-defensores travestidos de bons amigos. 

Criaturas monstruosas capazes de sufocar até a morte qualquer ser vivo. Parece que o amor não é bem visto pelas pessoas. 

Seres inflexíveis, frios, desmotivados, sem sentimento, que permanecem presos ao cerne da situação. O processo de criação de um novo simulacro, de um novo roteiro, é o processo de renascer para uma vida de verdade. 

Inúmeras tentativas de persuasão traidora acontecem muito mais do que imaginávamos.

Nosso "best man" é literalmente focado em resultados e não aceita viver sem ter a certeza de que atinge sistematicamente altíssima performance em qualquer sorte de atividade, tarefa, processo, dispositivo, equipamentos, automóveis, e até mesmo em jogos de vídeo-games. Diante de uma situação confusa, cheia de memórias e sonhos, ainda vivemos a realidade atual. A complexidade deste progresso, que nos afasta cada vez mais de nós mesmos.

Parece que todos hoje querem cumprir uma estranha meta de deixar qualquer  um que expresse sentimentos, na situação mais vulnerável possível. Somos analisados por bases comparativas de sucesso, sendo sabedores de que neste circo, tomar, roubar, ludibriar, enganar, torturar, castigar, e até matar pode ser necessário. Metaforicamente ou literalmente. 

Como seria poder se soltar e, ufa!

Tal pesquisa há muito já se encontra entranhada na minha vida, na rede, nuvem. Nas minhas nuvens. Sou liberado, dono do meu nariz.

Odeio amar a frase de Pessoa, ele diz " odeio que me peguem pelo braço. Não me venham com estéticas, morais, éticas…, pre-programadas". Não acredito em set up natural para governar comportamentos que não surgiram naturalmente. 

Decupamos a vida, os segundos, minutos e horas, durante todo tempo. Simulamos o nem sempre terrível, mas nada doce, nunca inabalável ritmo e plano da Vida. Todos temos medos. Já adianto, tenho também, claro morro de medo de várias coisas, mas não tenho medo de usar palavras de qualquer sorte para me expressar. 

Nos meus planos, a decupagem ainda traz surpresas e decepções que deixarão o cliente (ops!) imobilizado, por dentro e por fora. Assim, valei me Deus, não é o final dos melhores, mas enfim, ufa! Desfecho, fim de linha. Ponto final. Passado. Debaixo do braço, aguda a dor que sinto bem nas tripas. 

A exploração do pântano lodoso existente em cada um de nós pode trazer revelações surpreendentemente mais lamacentas, recheadas de barro, borradas de ódio ou lambuzadas de um amor consistente, simples, mas verdadeiramente confuso atrelado ao ego. Pode até nascer um Lírio. 

Que tipo de ego então se abre por sobre nossas cabeças, claramente de dentro do peito? Retumbante de dor, lama, barro, e finalmente realidade desvendada. Será? A lama não pode ser tratada como sujeira, bem como a Lua não pode ser tão desejada se não se deseja também a luz. A Lua não seria sem o Sol, e mesmo na escuridão, está lá, a luz. Ela nos mostra o caminho através do pântano, sem se sujar.

O que somos está aqui, palpável, físico, racional, hoje. Nem ontem nem amanhã. Hoje. Fruto de todo o passado vivido ou não, até os últimos segundos antes de eu terminar esta frase. Lembranças do futuro podem sim existir. Eu li isso em algum lugar. 

Saudade daquilo que ainda não foi. Do que pode ser que já é.

(D.Seabra)









domingo, 11 de maio de 2014

Assim sendo...

"As amarras ainda não foram totalmente soltas. 
O exercício do delírio vem depois da fome sentimental jamais curada. Ele sobressai as alterações metabólicas de qualquer sorte. Vazio. Fome. Me sinto oco. 
Casco frágil de uma alma que tem asas. Imaginar a dor de permanecer rendido ao reino da falácia e do fingimento, é praticamente uma tortura. De certa forma, uma prisão em si mesmo.





O conteúdo deve ser liberado.
Assim o amor poderá viver e ser em sua plenitude. Deus existe, quanto menos humanos somos. Sou feliz por ter causado a minha própria morte espiritual, e o renascimento de outro alguém demanda sim, dor e sofrimento, através dos quais vamos evoluir, à outro plano, metafísico e transcendental. 
Lá, onde reside o mais puro amor."

(D.Seabra)

sexta-feira, 9 de maio de 2014

O que é que é?

Eterna é a dor
Da dor que não vem
Da cura que nao tem
Do tempo, que não volta, já foi...
Só vai! 

(D.Seabra)